A utopia eleitoral

Por Marcelo Pacífico

Período eleitoral municipal. De dois em dois anos nos vemos nessa mesma situação. Lá vem eles, aos montes, candidatos bater em nossas portas e dar tapinhas nas nossas costas dizendo que vão acabar com nosso sofrimento, que vão minimizar nossa dor naquela urbe. Sabemos que não é bem por aí. Estamos em 2020 e até hoje não encontraram essa “fórmula milagrosa”. Mas, é claro que dentre todos existe muita gente que realmente pensa no coletivo, que de verdade quer o melhor pra cidade em que almeja representar. Se esforçam, estudam, analisam, pesam os prós e contras. São heróis sem capas que colocam a cara a tapa, prestes a entrar no buraco dos ratos. Sim, porque lá, a coisa é diferente. Você entra de um jeito e pode sim, sair de outro, com a cara e o jeito deles.

Num país de corrupção como o nosso, do “jeitinho brasileiro”, da vantagem em tudo, do desrespeito e do “farinha pouca, meu pirão primeiro”, é muito difícil não esbarrar com alguém que lhe ofereça uma proposta milaborante em troca de favores políticos. De verdade.

Mas, como o próprio título diz, “A utopia eleitoral”, lá vou eu pros meus devaneios e loucuras que saem da minha mente olhando atentamente ao processo político, seja ele de qual esfera for. Municipal, estadual e federal.

Entendam, amigos, que é uma opinião isolada minha, não tenho nenhuma formação profissional política, não tenho faculdade de gestão pública, administração, nada desse tipo. Meu envolvimento com a política foi apenas uma fracassada candidatura a vereança em 2008 e um pai que foi vereador e prefeito em uma cidade do interior mineiro, que não teve qualquer tipo de interferência de minha parte porque, devido a circunstâncias da vida, eu ainda não o conhecia. Fui conhecê-lo (e nos reconhecermos como pai e filho) já no último ano de seu mandato e portanto nada de envolvimento político aconteceu.

Gostaria que, de alguma forma, raciocinassem comigo. Que comecem os jogos.

Muitos problemas (senão todos) voltados à corrupção vem da facilidade de acesso à coisa pública e muitas das vezes aos “favores” deixados no caminho com as “manobras” políticas que formam o pano de fundo de qualquer pleito eleitoral. Uma troca de favores, de obrigações e presentes, sempre almejando algo mais para si mesmo.

Muito me espanta que num país que se diz detentor e defensor da democracia, dos direitos iguais, do bem comum, o primeiro ato da democracia, que é a eleição, seja obrigatório. Isso é democracia? É um direito? Ou um dever? Arbitrariedade. Mas é claro que se o voto em nosso país não fosse obrigatório, os candidatos gastariam muito mais solas de sapato e toda a saliva pra ir atrás de cada um e nos convencer não só a ir votar, mas ir votar nele.

Ponto 2. O despreparo dos candidatos é gritante. Não desmerecendo por escolaridade, profissão, mas é inconcebível que qualquer um possa ter o direito de nos representar. Ah sim, isso é democracia…..Pois bem, mas você tem a certeza de que um cara vestido de palhaço, um outro latindo, um com capinha de super-herói e outras atrocidades audio-visuais tem capacidade, de verdade, de nos defender? Ou é uma grande fita de triagem do BBB na incansável busca pela fama através de bizarrices televisivas?

Aí vamos sempre comparar com aquela situação: Pra ser gari, você precisa fazer um concurso, uma prova, mostrar que é capaz. Nunca desmerecendo a profissão desses grandes homens e mulheres que limpam a sujeira que você deixa por aí, principalmente os candidatos, que são nosso assunto de hoje.

Agora, pra gerir uma cidade, um estado, um país, você não acha que deveria haver também um concurso de análise da capacidade de exercer a função (tão importante) que está em jogo? Não digo ter somente um curso superior qualquer. Digo um curso superior comprovado na área em que você vai atuar. Gestão pública, gestão de cidades, administração pública. Isso já seria uma boa linha de corte pra muita coisa ruim que a gente é obrigado a ver e ouvir por aí.

E um último ponto, que acho que seria válido, mas nunca viável (quem ousasse por em prática, teria a cabeça cortada em praça pública). Falo da distribuição do horário político, ou da propaganda enganosa obrigatória política (mais uma vez deixando claro que tem muita gente com boa intenção, preparo e ótimas soluções de desenvolvimento).

Sim, amigos e amigas. O horário político é onde começam todos os conchavos eleitoras, as barganhas políticas, as maracutaias, o toma lá, dá cá, do pleito em pauta. Em busca de maior tempo no rádio e tv, partidos se coligam com qualquer outra sigla, nanicas ou não, pra terem o destaque e aí entregam sua alma ao diabo, pois sim, terão que dividir favores, posições, cadeiras, com aqueles que se coligaram. Tabuleiro armado. Jogo iniciado. Que rolem os dados. E as cabeças.

Uma sugestão utópica (essa é louca mesmo) sobre a divisão do horário político. Vamos partir do começo do raciocínio. Imaginemos que tivéssemos por dia 18 minutos de horário político obrigatório no rádio e na tv. A partir disso, os tribunais eleitoras de cada esfera (a depender do pleito do momento), disponibilizaria 6 vagas para candidatos, com 3 minutos cada. Mas esses 6 candidatos representariam suas siglas, vencidas em triagem por competência, em concurso admissional para aquela eleição. Provas, concurso, capacidades. Você poderia ter 300 partidos disputando, mas 6 seriam os que teriam o poder de representatividade. Daí sim, teríamos 3 minutos para os 6 candidatos mostrarem seu projeto. E não mais candidatos com 5 minutos, alguns com 10 segundos…isso não é democrático. Seis candidatos pleiteando uma cadeira de prefeito, por exemplo. Os 6 mais preparados. Visando o bem da cidade. E não os aventureiros, os que querem “tomar voto”, os que querem “dinheiro fácil”, os que querem “5 minutos de fama na tv”.

Os 6 candidatos teriam o mesmo tempo, as mesmas condições, a mesma oportunidade.

Ah, e já ia me esquecendo. Com uma regra importantíssima: Só valeria falar dos projetos e melhorias. Seria proibido o ataque a adversários. Caso fosse feito, o tempo de ataque seria retirado de seu próximo programa e ofertado ao candidato ofendido.

Utópico? Sim. Aplicável? Nunca.

Abraços.

Marcelo Pacífico – radialista/jornalista

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